A Homeopatia

Saiba tudo sobre esta forma de tratamento.

O que é a Homeopatia?



Melhor do que as palavras que poderiamos usar com o propósito de vos dar uma definição do que seja o conceito de homeopatia, são as palavras do próprio "pai" da terapêutica homeopática, o médico alemão Christian Friedrich Samuel Hahnemann, no seu “Organon da Arte de Curar”.

Aconselhamo-vos, portanto, a lerem os treze parágrafos que seleccionamos de entre os duzentos e noventa e um que o Organon tem, e que exprimem bem o quadro geral acerca do que é a homeopatia. Depois, voltaremos ao conceito mais adiante.


 

"ORGANON"

§1 A única e elevada missão do médico é a de restabelecer a saúde dos pacientes, ou seja, curá-los das suas enfermidades.

§5 É de grande utilidade e ganho para o médico, tudo o que se relaciona com as causas mais prováveis que desencadeiam as doenças agudas. Nas doenças crónicas, é também de grande utilidade o conhecimento dos seus pontos mais significativos, o que o habilita a descobrir a sua causa fundamental, que em regra é devida a um miasma. Nestas investigações realizadas com o objectivo primordial de atingir a cura, deverá tomar-se nomeadamente em conta: A constituição física do paciente – muito em especial quando a enfermidade é crónica; O seu carácter e personalidade; A sua ocupação; Modo de vida; Hábitos; Idade; Actividade sexual.

§6 O médico deverá constatar com precisão todas as alterações na saúde do paciente, quer ao nível físico quer mental. Estas, podem ser percepcionadas pelo enfermo, observadas por todos aqueles que com ele convivem e pelo próprio médico durante a fase do interrogatório. O conjunto de sinais e sintomas assim obtidos retratam a doença na sua integridade. Captada a totalidade sintomática estará o médico em condições de remover a enfermidade, porquanto, removidos os seus sinais removida será a sua causa interna.

§11 Na doença, a força vital é inicialmente afectada, de forma dinâmica (resultante de energia), permitindo ao corpo manifestar as sensações desagradáveis em forma de sintomas. Da mesma forma age o remédio homeopático na força vital, cada um, com as suas características específicas, e não com as de outros medicamentos. A acção é dinâmica, não material, e quanto menor a matéria e melhor dinamizada, maior será o seu efeito.

§25 Todavia, o único oráculo infalível da arte de curar, a experiência pura, ensina, em todos os experimentos criteriosos, que realmente aquele medicamento que provou ser capaz de produzir em sua actuação sobre organismos humanos sadios, a maior parte dos sintomas semelhantes aos que se encontram nos casos de doença a ser curados, em doses adequadamente potencializadas e reduzidas, também remove, de maneira rápida, radical e duradoura, a totalidade dos sintomas desse estado mórbido, isto é, toda a doença em curso, transformando-a em saúde, e que todo medicamento cura, sem excepção, as doenças cujos sintomas mais se assemelham aos seus, não deixando de curar nenhuma delas.

§104 Quando conseguimos a totalidade sintomática de qualquer doença, teremos completado a parte mais difícil do trabalho médico e um guia a seguir durante o tratamento, para saber qual o efeito do medicamento e as mudanças ocorridas no estado do paciente. Em um novo exame do paciente ele só precisará riscar da relação os sintomas que apresentaram melhora, marcará os que permanecem e acrescentará os novos que possam haver surgido.

§105 A segunda parte do trabalho do médico é o de conhecer o poder patogenético das drogas, para escolher aquela droga que possua o conjunto de sintomas artificiais semelhantes à totalidade dos sintomas das doenças naturais.

§106 Devemos conhecer todos os efeitos patogenéticos de cada um dos diversos medicamentos (todos os sintomas e alterações mórbidas provocados no indivíduo sadio, durante a experimentação).

§124 Para esse fim, é preciso empregar cada substância medicamentosa completamente só e perfeitamente pura, sem misturá-la com qualquer outra substância estranha ou tampouco ingerir alguma outra de natureza medicamentosa no mesmo dia nem nos subsequentes, enquanto se deseja observar os efeitos do medicamento.

§146 O terceiro ponto no exercício de um verdadeiro artista da cura concerne ao emprego mais adequado das potências morbíficas artificiais (medicamentos) que foram experimentadas em indivíduos sadios a fim de obter uma cura homeopática das doenças naturais.

§153 Nessa procura do meio de cura homeopático específico, isto é, nessa confrontação do conjunto característico dos sinais da doença natural contra a série de sintomas dos medicamentos existentes a fim de encontrar um cujas potências mórbidas artificiais correspondam, por semelhança, ao mal a ser curado, deve-se, seguramente, atentar especialmente e quase que exclusivamente para os mais notáveis/estranhos, singulares, incomuns e peculiares (característicos) sinais e sintomas do caso de doença, pois na série de sintomas produzidos pelo medicamento escolhido, é principalmente a estes que devem corresponder sintomas muito semelhantes, a fim de que seja mais conveniente à cura. Os sintomas mais gerais e indefinidos: falta de apetite, dor de cabeça, debilidade, sono inquieto, mal-estar etc., merecem pouca atenção devido ao seu carácter vago, se não puderem ser descritos com mais precisão, pois algo assim geral pode ser observado em quase todas as doenças e medicamentos.

§273 Em nenhum caso de tratamento é necessário e, por conseguinte, não é admissível administrar a um doente mais do que uma única e simples substância medicamentosa de cada vez. É inconcebível que possa existir a menor dúvida acerca do que está mais de acordo com a natureza e é mais racional: prescrever uma única substância medicamentosa simples e bem conhecida num caso de doença ou misturar várias diferentes. Na única, verdadeira, simples e natural arte de curar, a Homeopatia, não é absolutamente permitido dar ao doente duas substâncias medicamentosas diferentes de uma só vez.

§274 O verdadeiro médico encontra nos medicamentos simples, administrados exclusivamente e sem estarem combinados, tudo o que possa desejar; ele conhece o sábio provérbio:” é errado tentar empregar meios complexos quando bastam os simples”, e jamais pensar em dar como medicamento qualquer substância que não seja simples e única; outro motivo é que os medicamentos simples são inteiramente experimentados, e é ainda impossível prever como duas ou mais substâncias medicinais poderiam conjugadas, mutuamente alterar e obstar as acções de cada uma no organismo humano; sabe-se que a totalidade dos sintomas de uma substancia simples, presta ajuda eficiente por si só, se for homeopaticamente escolhida; e supondo que o pior aconteça que não foi escolhida rigorosamente de acordo com a semelhança de sintomas, não servindo, portanto, é ainda tão útil (por promover nosso conhecimento de agentes terapêuticos) porque, pelos novos sintomas excitados por ela em tais casos, os sintomas que esta substância medicinal já havia demonstrado em experiências, na saúde do corpo humano, se confirmam, vantagem esta que é perdida pelo emprego de todos os remédios compostos.


Origens: Samuel Hahnemann

O Dr. Samuel Christian Frederic Hahnneman, nasceu em Meissen, Alemanha, no dia 10 de Abril 1755 e é considerado o fundador da homeopatía por ter concretizado a implementação da lei da similitude "similia similibus curantur" na sequência de uma experiência pessoal realizada com china offici nalis em 1790.

Mas muitos séculos antes de Hahnemann, Hipócrates (460-377 A.C) considerado o "pai da medicina" que nasceu na ilha grega de Cós onde foi professor, já havia enunciado no Corpus Hipocraticus os princípios que definem as maneiras possíveis de tratar um paciente. Para Hipócrates, a função do médico deveria ser a de ajudar a vis medicatrix naturae, ou seja, a força natural de cura, podendo recorrer quer à similia similibus curantur – os semelhantes curam os semelhantes -, quer à contraria contrariis curantur - os contrários curam os contrários.

Como decerto se aperceberam, a metodologia subjacente ao método terapêutico homeopático é diferente da normalmente utilizada pela medicina alopática. A homeopatia unicista não cuida de saber da doença ou patologia em concreto que afecta o paciente. Daí o aforismo conhecido nos meios académicos "em homeopatia não existem doenças, somente existem doentes". Quando o homeopata procede à anamnese, encara o paciente como sendo uma realidade multíplice que abrange variados sinais e sintomas físicos, emocionais e mentais, e procurará identificar a causa primeira que lhe provocou a alteração da energia vital e conduziu à enfermidade.

Podemos sintetizar as diferenças entre a homeopatia e a alopatia em cinco aspectos:

1) A homeopatía vê a doença como um conjunto de desequilíbrios que afectam o paciente (físicos, emocionais e mentais) segundo uma perspectiva de globalidade, e a alopatía encara a enfermidade segundo uma perspectiva material: a doença em si, e não o paciente;

2) A experimentação ou ensaio do remédio (patogénese) é realizada em pessoas sãs e tendo em linha de conta as reacções psicológicas do paciente, enquanto que na alopatía a experimentação é realizada em pessoas doentes, utiliza o método placebo nos seus ensaios clínicos e busca somente os efeitos específicos relativos à doença;

3) A homeopatía utiliza substâncias capazes de produzir a mesma enfermidade numa pessoa sã – lei da similitude, similia similibus curantur – e a alopatía utiliza substâncias contrárias à doença aplicando o princípio contraria contrariis curantur;

4) Na homeopatia é observado o principio da infinitesimalidade – corolário da lei de similitude – utilizando-se doses pequenas e muito diluídas, sem toxicidade, enquanto que a alopatía utiliza doses ponderais, mais fortes e concentradas;

5) Daqui resulta uma outra importante diferença que tem a ver com os efeitos secundários dos remédios: em homeopatia são mínimos enquanto na alopatía por vezes temos situações de alto risco.

FUNDAMENTO DA HOMEOPATIA

A homeopatia alicerça-se num trabalho de natureza científica com mais de duzentos anos, consequência das investigações efectuadas por múltiplos experimentadores que ingeriram substâncias em doses ponderais, não letais, e registaram meticulosamente os sintomas produzidos, e ainda de registos toxicológicos – quadros sintomáticos obtidos pela ingestão voluntária ou involuntária de substâncias, como o arsénico – e observação de curas clínicas.
Nascem assim as Matérias Médicas, que são numa definição simplista, registos de sintomas – Verbi gratia: Matéria Médica Pura, S. Hahnemann; A Cyclopaedia of Drug Pathogenesy, Hughes & Dake; The Encyclopaedia of Pure Materia Medica, T.F. Allen e The Guiding Symptoms of Our Materia Medica, Hering –.

Com o aumento incessante do número de medicamentos experimentados,  face às limitações humanas no concernente à memória – é praticamente impossível um homeopata dominar cabalmente as muitas patogenesias descritas –, realizaram-se Repertórios, índices de sintomas, coligidos das Matérias Médicas ou da mesma forma que estas, realçando-se pela sua importância o Repertório de Kent.

Com mais de 1000 medicamentos descritos nas Matérias Médicas, estas são forçosamente complementadas pelos Repertórios, que são índices de sinais e sintomas, organizados em capítulos, rubricas e sub-rubricas.

A medicina alopática, método terapêutico pelo qual se efectuam tratamentos com remédios que produzem efeitos diferentes dos da doença a curar, utiliza antídotos – a diarreia é tratada com um medicamento que produz obstipação –, enquanto que a homeopatia utiliza uma dose mínima da substância – de modo a que a sua toxicidade seja eliminada – que provoca o mal que se pretende tratar – o café que impede ou dificulta o sono à maioria dos indivíduos, é utilizado em doses homeopáticas ( doses mínimas)  para combater a insónia. 

A homeopatia enfrenta e assume o corpo na sua globalidade e os medicamentos têm a função de auxiliar o organismo na autocura, significando isto que se trata o semelhante pelo semelhante – do Grego “homos”/semelhante e “pathos”/sofrimento –.

São três os grandes princípios da doutrina homeopática: Similitude, Globalidade e Infinitesimalidade.
A estes poderemos referir como sua consequência lógica, o do Remédio Único. Em sede de Homeopatia Unicista, pela utilização conscenciosa do Repertório de Sintomas Homeopáticos, e pelo recurso ao estudo exaustivo das Matérias Médicas, a um determinado paciente, apenas deverá ser receitado um medicamento, o seu simillimum, que na impossibilidade de ser perfeito, deverá aproximar-se o mais possível da totalidade sintomática.

 

OS PRINCÍPIOS DA HOMEOPATIA

PRINCÍPIO DA SIMILITUDE

Hipócrates, que nasceu em 468 a.C. e faleceu em 377 é considerado o pai da medicina ocidental, com duas correntes terapêuticas fundamentais: Contraria Contrariis Curantur e Similia Similibus Curantur.
Hahnemann, na sequência da experimentação de diversas substâncias – verbi gratia, Arsenicum Album, Belladonna – e após ter descoberto que a quina, que destrói a febre, a provoca no indivíduo são, concretizou o princípio normalmente referido como “Similia Similibus Curantur”, ou seja, os semelhantes são curados pelos semelhantes.
Os sintomas de uma determinada doença são curados pela substância altamente diluída – trata-se de uma diluição homeopática que retira a toxicidade ao medicamento, estimulando concomitantemente as capacidades reaccionais de autocura do organismo –, que produz num corpo são, sintomas artificiais semelhantes aos da doença, quando administrada em dose ponderal – dose forte mas não letal – ou experimental – Hahnemann preconizou também a utilização da trigésima potência centesimal –, e isto, desde que não estejamos perante um caso de incurabilidade ou de lesões absolutamente irreversíveis.
Toda a substância capaz de provocar determinados sintomas num indivíduo são, faz com que estes desapareçam num organismo doente.
Não se trata de combater a doença com a própria doença, mas com algo que se comporta da mesma forma que ela.
O simillimum representa sempre a esperança de cura do paciente e é o medicamento onde os sintomas totais apresentados pelo doente encontram correspondência na respectiva patogenesia ou conjunto de efeitos desencadeados por um remédio.
Este, pode denominar-se o simillimum perfeito.

Um exemplo:
António, apresentou-se a uma consulta homeopática queixando-se de acessos de asma, que começam por volta da meia noite  e duram normalmente até às três horas da manhã.
Após interrogatório, manifestou ter um intenso medo da morte, principalmente quando está sozinho, que é mais evidente durante os acessos de asma e que agrava quase sempre entre a uma hora e as três horas da manhã. Tem medo de fantasmas, especialmente à noite, quando apaga a luz para dormir.
O seu estado psíquico sofre alterações bruscas: um dia está excitado e agitado, para no outro estar deprimido e melancólico. Estas modificações de humor surgem, por vezes, no mesmo dia.
Toma medicamentos que lhe foram receitados pelo seu médico de família, mas está convicto de que nunca o irão curar.
É um indivíduo magro, de face marcadamente angulosa e pálida.
Este é nitidamente um tipo Arsenicum Album, de similitude perfeita – veja-se o artigo referente ao medicamento Arsenicum Album –.

Por vezes – para sermos mais precisos, a maior parte das vezes –, apenas uma parte do quadro sintomático é encontrada na lista de sintomas do remédio mais adequado disponível na Matéria Médica.
Beto tem sensações corporais estranhas. Por vezes sente-se desmaiar, o que faz com que se levante da cama ou da cadeira onde está sentado para caminhar. Sente palpitações intensas, que o levam a pensar que está à beira de um ataque cardíaco, facto que também o faz movimentar atabalhoadamente.
Fica apreensivo quando tem uma entrevista ou tem de participar em qualquer evento que o afaste de casa e do seu círculo de acção normal. Em determinadas alturas tem medo da morte e pensa que vai morrer. Chega mesmo a predizer o dia em que isso vai acontecer.
Tem medo de andar sozinho, de sair de casa, de multidões.
Tremores da língua e das pernas e dores de cabeça terríveis, sempre que trabalha mais intensamente. Fica aliviado quando a amarra fortemente com um pano.
A maioria dos sintomas pertence ao quadro de Gelsemium, mas estão presentes outros, nomeadamente, de Argentum Nitricum e Aconitum Napellus.
Segundo Hahnemann, este medicamento imperfeito ou simillimum possível, deverá ser utilizado na falta de um mais perfeito, sem prejuízo de posterior reavaliação do caso clínico.

A experiência demonstra que se a lei da similitude não for respeitada, os medicamentos homeopáticos são praticamente ineficazes.
A doutrina hahnemanniana é unicista, porquanto é utilizado um único remédio para a obtenção da cura, contrariamente ao que acontece com o pluralismo – a Escola Pluralista, também conhecida por Escola Francesa, utiliza vários medicamentos simultaneamente ou em intervalos de tomas – e com o complexismo –  a Escola Complexista ou Escola Alemã, utiliza em regra, os complexos, constituídos por vários medicamentos combinados na mesma solução excipiente –.
Um terapeuta pluralista, no caso de Beto, poderia receitar os três medicamentos: Gelsemium, Argentum Nitricum e Aconitum. Já um complexista, optaria por vários medicamentos complexos – para a prática do complexismo é de extrema importância o conhecimento do “Ordinatio Antihomotoxica et Materia Medica”, dos Laboratórios Heel, Alemanha, existindo uma versão espanhola –.

Na perspectiva do unicismo não existem remédios equivalentes e portanto, não existem substitutos. Por outro lado, o homeopata não deve misturá-los, deixando à sorte a determinação do efeito a ser produzido no paciente.
Para que se possam conhecer os efeitos dos medicamentos, impõe-se que só seja receitado um de cada vez. Só assim se poderá avaliar a reacção do doente ao medicamento. Caso se efectue a prescrição de uma maior quantidade de remédios, à avaliação dos efeitos produzidos no paciente acresce a dificuldade de determinar qual dos medicamentos homeopáticos está a produzir um efeito real e benéfico no enfermo. Com os complexos homeopáticos a prescrição simplifica-se, pelo facto de os medicamentos serem estudados – alguns já se encontram patenteados acerca de 50 anos – para patologias específicas. Pecam por se reportarem às patologias num quadro teórico transportado e adaptado aos princípios da Medicina Ortodoxa, violentando o princípio fundamental de que em homeopatia não há doenças, mas tão somente doentes.

O Repertório Homeopático, utilizado conjuntamente com a Matéria Médica Homeopática assistirá o homeopata na busca da substância cuja patogenesia se identifique mais com o quadro sintomático do paciente.
Carlos tem uma pele muito seca e doentia. Estão constantemente a surgir erupções escamosas, em vários locais do corpo. Tem prurido, que agrava com o calor do leito.
É um idealista, cheio de teorias filosóficas, que julga inabaláveis.
Não gosta de tomar banho e quando o faz os seus padecimentos são agravados.
Tem diarreia, por volta das 5 horas da manhã, o que o obriga a ir urgentemente à casa de banho.

Utilizando o Repertório Homeopático Digital de Ariovaldo Ribeiro Filho, destacamos os seguintes sintomas – este procedimento só será entendido pelo leitor, quando se consagre ao estudo do Repertório e da Repertorização – :
1 – MENTAL – FILOSOFIA – devaneios filosóficos, grande inclinação a
2 – MENTAL – LAVAR – aversão a lavar-se
3 – RETO – DIARREIA – manhã – 5 h
4 – PELE – ERUPÇÕES – ESCAMOSAS
5 – PELE – PRURIDO – aquecer-se – cama, na
6 – PELE – SECA
7 – GENERALIDADES – BANHAR-SE, lavar-se –agr.

Os 12 primeiros resultados por cobertura foram:
1 – sulph.; 2 – phos.; 3 – calc.; 4 – rhus-t.; 5 – sep.; 6 – clem.; 7 – psor.; 8 – ant-c.; 9 – mez.; 10 – merc.; 11 – kali-c.; 12 – nat-m.
( Nos Repertórios Homeopáticos os medicamentos vêm citados por abreviaturas, devidamente identificadas nos inícios das obras ).
Comparando os resultados com a Matéria Médica, chegamos à conclusão de que o simillimum é Sulfur – estamos novamente perante uma similitude perfeita –. Repertório e Matéria Médica complementam-se na pesquisa do medicamento curador.

O simillimum tem um poder de cura quase extraordinário e podemos verificar que o doente lhe é extremamente sensível. Quanto mais perfeita for a similitude, como consequência da escolha criteriosa do medicamento, mais susceptível será o doente aos seus poderes curativos.

 

PRINCÍPIO DA GLOBALIDADE

A Homeopatia encara o ser humano duma forma global e este é estudado na sua totalidade.
O homem é considerado em todas as suas vertentes. Ele é o medo, a tristeza, a ansiedade, a excitação sexual, a ausência de libido, a astenia e a fadiga, as relações laborais, familiares, sociais, os distúrbios de memória, cognitivos, o sono reparador ou não, a insónia, os sonhos, sensações, ilusões e delírios, a sede e o apetite, as febres, dores de cabeça, estômago, as lesões orgânicas, os transtornos funcionais, os transtornos e traumas recentes e/ou passados. Estes exemplos ambientam-nos na globalidade do nosso ser e consciencializam-nos para o facto de ser esta a totalidade que reage às agressões interiores ou externas. Encará-la como mera acumulação de partes isoladas é uma fuga à realidade com o intuito de facilitar a actividade terapêutica já que o equilíbrio do sistema orgânico integral resulta da interacção entre os vários subsistemas. É também em função dessa totalidade, que é prescrito o simillimum.
Em homeopatia não há doenças, só há doentes. Por isso, Hahnemann considerava uma verdadeira “heresia” afirmar que damos determinado remédio nesta ou naquela patologia, como a Ipeca ou a Drosera para a tosse, a Ignatia para a distonia neurovegetativa e  Lachesis para os distúrbios da menopausa. O que se cura é o paciente com tosse, com distonia neurovegetativa e com distúrbios menopáusicos e não a designação da doença. Praticar a homeopatia nesta última formulação é confundi-la por identificação de métodos, com a medicina alopática. Actualmente, pelo menos em território Europeu, tende-se à utilização da homeopatia mediante os princípios da Medicina Ortodoxa. É inelutável, que o contributo da prática médica ortodoxa é de um valor inestimável para a homeopatia, embora não seja fundamental, mas o transporte ou impregnação do corpo teórico da Homeopatia pelo da Medicina Ortodoxa só faz com que se passe a ver a doença em detrimento do doente. O complexismo é utilizado maioritariamente de acordo com as patologias tal como são conhecidas na Medicina Ortodoxa. Tal facto, embora não possa permitir que a escolha do medicamento, por muito criteriosa que seja, determine a perfeita cura do paciente – só quando se escolhe o medicamento visando o doente e não a doença é que se pode ter maior certeza de promover a cura e o restabelecimento do enfermo –, permite uma rápida actuação no quadro sintomático imediato, facultando alívios que propiciam no tempo, a ulterior pesquisa do simillimum. Mas é de não esquecer, que embora a utilização dos complexos homeopáticos possa ser aliciante pelo pragmatismo e rapidez de prescrição, o que se cura, ou tende a curar, é o doente e não a doença.

Considerando o homem no seu centro, digamos impropriamente, na sua essência, nos chamados sintomas da imaginação – que englobam as sensações, sonhos, ilusões e delírios –, biopatográficos ou etiológicos – envolvem os transtornos causados por acontecimentos, traumáticos ou não –, mentais – medo, depressão, ansiedade, astenia, agitação, inquietude, memória, cognição, capacidade de valoração dos factos, inteligência, entre outros –e gerais – sede, apetite, transpiração, sono, fezes, urina, etc. – pode ocorrer que o medicamento escolhido não tenha presente na sua patogenesia os sintomas locais – quisto no ovário esquerdo ou úlcera gástrica –. Caso isto suceda, não constitui um óbice à aplicação do medicamento, visto que o remédio que cura o doente faculta o desaparecimento dos sinais e sintomas particulares.
O organismo funcionando como um todo, pela acção do simillimum,  perfeito ou imperfeito, restabelece o seu próprio equilíbrio, caminhando pela vereda da saúde.

 

PRINCÍPIO DA INFINITESIMALIDADE

A infinitesimalidade é um corolário directo e imediato da similitude.
Os medicamentos homeopáticos são essencialmente utilizados em doses de altas diluições, por duas razões fundamentais:

  1. As substâncias utilizadas em dose ponderal, podem nalguns casos apresentar um grau de toxicidade capaz de maior ou menor agressão ao organismo do paciente, pelo que, submetendo-as a diluições sucessivas anulamos os efeitos indesejáveis, enquanto a acção terapêutica se mantém;
  2. Quanto maior a diluição mais profundo e duradouro é o efeito do medicamento, e isto, desde que correctamente prescrito.

Hahnemann, para além de submeter as substâncias medicamentosas a sucessivas diluições, dinamizou-as por intermédio de uma agitação vigorosa e rítmica.
As principais doses altamente diluídas, são as decimais, centesimais e cinquenta milesimais. De referir ainda as Korsakovianas, que podem atingir o valor de 100.000 – 100.000 K –.

Para a realização das sucessivas dinamizações, o prático ou o farmacêutico deve dispor de frascos novos, previamente lavados com água e secos posteriormente.
Tratando-se de tintura mãe ou substância líquida, coloca-se no primeiro frasco uma parte em peso daquela, completando-a com 99 partes de um veículo apropriado – água bidestilada e álcool a 38 ou 40º -, agitando-se vigorosamente cem vezes. Esta diluição, seguida de dinamização, constitui a primeira centesimal (1ª CH).
Desta 1ª centesimal, deita-se 1 ml num outro frasco com 99 ml de excipiente. Agita-se igualmente 100 vezes e obtém-se a 2ª centesimal (2ª CH).
Este processo repete-se sucessivamente quantas vezes forem necessárias para produzir a potência desejada.
As decimais são obtidas pelo mesmo processo só que numa relação de 1/10.
No que às triturações respeita, a substância sólida é previamente reduzida a pó e triturada num almofariz, juntando-se-lhe lactose. A proporção das substâncias é calculada para que se obtenha uma 1ª centesimal ou decimal. A trituração é executada pelo menos durante vinte minutos. Para obter a 2ª centesimal ou decimal, junta-se uma parte do triturado com 99 ou 9 partes de lactose e procede-se a nova trituração. O mesmo, para a obtenção da 3ª centesimal.
De seguida, passa-se ao meio líquido, procedendo-se como atrás se mencionou, já que todos os produtos são solúveis a partir da 4ª centesimal.

O remédio homeopático é o resultado de um produto inicial submetido a diluições sucessivas, acompanhadas simultaneamente de agitação e ritmo – este processo denomina-se dinamização ou sucussão –.

No princípio das suas experimentações, Hahnemann começou por diluir as substâncias em álcool ou água, utilizando diversas proporções. No entanto, apercebeu-se que os resultados ficavam longe das suas expectativas. Daí imprimiu-lhes uma agitação violenta, que denominou sucussão. Assim, às sucessivas diluições, intercalou agitações rítmicas e vigorosas, que replicaram a informação original do medicamento, potenciando a sua eficácia curativa.

A DOENÇA

A saúde configura-se como um estado de harmonia entre a mente e o corpo, estado esse que pressupõe o equilíbrio, quer das funções cerebrais, quer dos diversos órgãos.
A doença na concepção de Hahnemann, é algo invisível. É um distúrbio da força vital invisível. Hahnemann considera como força vital a vida que anima um ser vivo. Toda a globalidade psicossomática da entidade viva estruturada no interior de um invólucro, que sem os compostos que o “animem”, nada mais é do que um cadáver.

A definição de saúde não é compreensível sem que tenhamos em linha de conta o “ser” global, nos seus três níveis de existência: o mental, o emocional e o físico. “A carência fundamental da medicina moderna, mecanicista e materialista, é a de ter ignorado e ocultado a realidade holística do ser humano no âmbito da saúde e da enfermidade. Também é consequência de ter ignorado e ocultado as leis da vida por uma ausência total de educação e de informação” – Laurent Messian –.
A nossa luta permanente, desde o nascimento até à morte, constitui-se como um combate duradouro contra as agressões do meio ambiente, o que implica um equilíbrio dos três níveis de existência e um fortalecimento constante do sistema imunitário. Estamos doentes, em regra, quando o nosso sistema imunitário é portador de uma deficiência específica. Tratar uma determinada patologia ou prevenir patologias futuras, implica grosso modo, o reequilíbrio de todas as nossas funções e consequente reforço da imunidade.

A doença que não tem necessidade de intervenção cirúrgica ou é aguda, crónica, por abuso de medicamentos ou por deficientes condições de vida.

Muito antes da conceptualização da Medicina Psicossomática, aquele afirma que existem doenças psíquicas geradas por doenças físicas e moléstias orgânicas condicionadas pela persistência de ansiedades, aborrecimentos, irritações, injustiças, medos, mágoas e traumas, que em pouco tempo podem destruir a saúde física.

As doenças do homem físico, são as do homem psíquico. Quanto mais forem as queixas físicas, mais doente estará o indivíduo. Se predominarem as queixas psíquicas, a terapêutica homeopática será extraordinariamente eficaz impedindo que o paciente seja acometido ulteriormente por padecimentos orgânicos.

Na doença aguda, decorrendo da sua actualidade, os principais sintomas são facilmente individualizáveis, exigindo-se um pequeno esforço do homeopata e do paciente para se delinear o quadro clínico.
Seleccionado e ministrado o correcto medicamento homeopático, a doença declinará imperceptivelmente, levando algumas horas se é de recente instalação ou mais tempo se for de longa duração constatando-se primariamente a melhoria do estado mental. Um aumento do conforto, da serenidade e de certo modo, da alegria com retorno ao estado natural de equilíbrio, é um índice seguro de melhoria.

Coabitação de doenças

Não deixa de ser frequente, que duas ou mais doenças coexistam no mesmo organismo simultaneamente. Caso tal facto suceda, a força relativa das enfermidades é que determina qual prevalecerá.
Na presença de duas doenças distintas no mesmo organismo e sendo a mais antiga de força superior à que foi contraída recentemente, observar-se-á que a mais actual será repelida pela original – não se verifica uma aniquilação da enfermidade mais recente, mas sim, uma total inabilidade desta em penetrar no organismo –.Caso a doença recentemente instalada tenha uma força superior à doença que já residia no organismo, ocorrerá que a mais antiga permanecerá estacionária até que a neoformada complete o seu curso natural.
Resulta deste conceito que a Dinamis ou Força Vital não consegue curar uma doença com a instalação de uma outra diferente – “ A Natureza não consegue curar uma doença com a instalação de outra, mesmo que mais forte se a nova doença for diferente daquela já presente no organismo” –, mesmo de força superior. Somente nas circunstâncias em que ambas as doenças se assemelham na sua sintomatologia é que se experimenta a aniquilação mútua das enfermidades.
Dificilmente uma doença aguda constituirá um quadro complexo com uma crónica. Aquela excluirá esta, temporariamente.

Iatrogenia

No seio das doenças crónicas surge um grupo de enfermidades que tem aumentado no decorrer das décadas e que, infelizmente, se assumem como as mais graves e incuráveis das doenças de longa duração. Referimo-nos às doenças iatrogénicas, ou seja, aquelas que são produzidas por acções médico-terapêuticas inadequadas.
Aqui vai assumir uma importância, que não pode ser atribuída a qualquer outra terapêutica ortodoxa ou alternativa, a Isopatia, com a inerente dessensibilização do organismo, extirpando as toxinas acumuladas pelo efeito antídoto.

Hahnemann afirma ser praticamente impossível proceder à cura de tais enfermidades, após estas terem ultrapassado certa fase do seu quadro evolutivo.
Noutro artigo, teremos em conta as denominadas barreiras ou obstáculos produzidos por medicamentos alopáticos ao pleno efeito dos medicamentos homeopáticos.

DIÁTESES

Diátese é o conceito actual que além de englobar a doença crónica resultante de acção miasmática a que se refere Hahnemann, enquadra o conceito de modo reaccional patológico – diátese é um conceito que surgiu com a Escola Pluralista, correspondendo à doença hahnemanniana crónica –.
“Emanações que outrora eram consideradas, erradamente, como causadoras de doenças e que provinham de detritos orgânicos em decomposição ou de doenças infecto-contagiosas e cujos efeitos se podem assemelhar,  em parte, à acção microbiana no organismo”. Embora esta seja a definição de miasmas, que comumente se pode encontrar num dicionário, a realidade doutrinária homeopática subjacente ao conceito é muito mais vasta do que aquela que a mera descrição linguística pode denunciar. Efectivamente, Hahnemann empregava o termo miasma no mesmo sentido com que ele é definido actualmente, mas a sua conceptualização do fenómeno miasmático era bastante mais abrangente do que a priori se pode pensar. Das palavras do Organon pode depreender-se, que para Hahnemann, miasmas são estigmas de infecções contraídas e suprimidas num passado remoto pelos nossos ancestrais. Estes estigmas são perpetuados pela linha genética, condicionando o modo reaccional de um organismo, que pode apresentar uma predisposição particular para contrair certas doenças e manifestar determinada realidade sintomática. Este eminente fundador homeopata, desconhecendo os actuais conceitos de genética, microbiologia, virologia e bacteriologia, desenvolveu um corpo doutrinário capaz de explicar a perpetuação na linhagem genética de marcas resultantes de infecções bacteriológicas, e explica inclusive, as micromutações cromossómicas que sofremos ao longo das décadas ou séculos e que reflectem as adaptações aos meios patológicos. Na realidade é mais fácil perceber as inequívocas macromutações – adaptações – aparentemente estáveis, que a nossa espécie sofreu ao longo de milénios, do que as transformações que os seres experimentam num espaço de tempo circunscrito a algumas décadas ou séculos Traduz-se assim, numa modalidade reaccional patológica específica dum indivíduo face a uma agressão patogénica indiferenciada. Crê-se actualmente que o conceito de miasma hahnemanniano se encontra ultrapassado – principalmente devido às recentes concepções das Escolas Pluralistas que o consideram lacunar – , devido ao facto de este não englobar uma série de factores etiológicos de carácter endógeno, nomeadamente a hereditariedade e a adaptação dos genes humanos. Erradamente, esta perspectiva actual resulta de interpretações restritivas da obra de Hahnemann: da leitura atenta do capítulo do Organon referente aos miasmas, depreende-se que Hahnemann acreditava numa perpetuação dos efeitos miasmáticos. O § 81 do Organon denuncia que Hahnemann não descurou – embora não conhecesse –  o conceito de hereditariedade e de micromutação dos genes nos organismos vivos face a agentes patogénicos exógenos

Deve referir-se, que a remoção da superfície do organismo das manifestações de uma doença miasmática interna, deixando o miasma por curar, é a forma mais usual e prolífica de produzir doenças crónicas – Organon § 202/205. A supressão de um eczema na criança pode conduzir a ulteriores crises asmáticas. Hahnemann defendia que não se devia aplicar nas enfermidades locais, crónicas ou agudas, externamente, qualquer remédio, nem mesmo o homeopático correcto (Organon § 194; § 195). Este conceito hahnemanniano, embora teoricamente correcto, deve ser interpretado à medida da experiência clínica do homeopata, dos efeitos das diversas substâncias ou remédios no organismo, da patologia em causa ou da idiossincrasia do enfermo. A aplicação tópica de uma pomada de Arnica para um traumatismo físico recente, dificilmente terá complicações no organismo do paciente –.

A doença crónica progride do exterior para o interior, do baixo para o alto e os sintomas desaparecem na ordem inversa do seu aparecimento.

Hahnemann, constatou que alguns doentes tratados convenientemente com o remédio simillimum:

  • tinham apenas leves melhorias;
  • tinham recaídas;
  • eram acossados por novas patologias – não confundir esta situação com aquela que pode surgir com administração do simillimum imperfeito. Aqui, o paciente é acometido por novas patologias e não por sintomas acessórios.

Daqui deduziu que subjacente à patologia aguda teria que existir uma crónica, que englobou em categorias diatésicas, verdadeiras disposições latentes, de causa hereditária ou adquirida, condicionantes do modo de reagir de um organismo, predispondo-o a contrair um certo número de doenças.
Assim, os doentes cujas patologias não respondessem satisfatoriamente ao simillimum, deveriam ser enquadrados naquelas categorias para efeitos de tratamento – cada uma das categorias engloba os pacientes cuja reacção patológica é análoga, independentemente do agente agressor –.

Atente-se que a noção de doença crónica, não foi unanimemente aceite. Homeopatas como Kent e Hering, não lhe atribuíram grande importância, desenvolvendo todos os seus esforços na tentativa de descoberta do simillimum aplicável às situações patológicas imediatas do paciente em observação.

Gibson Miller, aluno de Kent, sustentou a necessidade de serem administrados sucessivamente diversos remédios, com o fim das doenças crónicas atingirem a cura.

Se no decurso de uma doença crónica surgir uma doença aguda banal, deve ser prescrito o remédio mais indicado, mas em baixa dinamização, de forma a não interferir ou interferir o menos possível com a acção prioritária do remédio de fundo.

Hahnemann individualizou três categorias:

  • Psora, derivada de uma intoxicação crónica – endógena ou exógena –.
  • Sicose como resultado das consequências negativas das vacinações – v.g. a antivariólica –, blenorragia mal tratada e de todos os processos mórbidos repetitivos e rebeldes.
  • Lues ou Sífilis, modalidade reaccional do organismo em face de agentes agressores diversos, caracterizada por manifestações semelhantes à da infecção provocada pelo Treponema pallidum. Nos tempos antigos a sífilis era considerada a causa da Luese.

Pelos trabalhos de Nebel e Vannier, incluem-se outras duas:

  • Tuberculinismo, como conjunto de manifestações físicas e psíquicas, bem como orientações mórbidas gerais imprimidas ao organismo por uma tuberculose que remonta a uma ou mais gerações.
  • Cancerinismo, forma nativa que susceptibiliza o organismo na direcção do risco oncológico.

Existindo um número considerável de remédios diatésicos, o terapeuta terá de procurar nas suas patogenesias os sintomas do quadro patológico apresentado pelo doente e obtido com recursos que não se limitam aos sinais recentes.

    • Ao lado de Sulfur, os medicamentos principais da Psora são: Arsenicum Album, Lycopodium e Nux Vomica. A Calcarea Carbonica é o medicamento constitucional e o nosodo é o Psorinum. (Constituição é um conceito essencialmente pluralista).
    • Ao lado da Thuya – a Thuya é a Sicose; a Sicose é a Thuya –, Dulcamara e Natrum Sulfuricum. O constitucional é a Calcarea Carbonica e o nosodo é o Medorrhinum.
    • Para a Luese temos como principais ao lado de Mercurius Solubilis: Argentum Nitricum, Lachesis e Phytolacca. O constitucional é Calcarea Fluorica e o nosodo é o Luesinum.
    • No Tuberculinismo, encontramos Phosphorus, Natrum Muriaticum, Pulsatilla e Sépia. O constitucional é a Calcarea Phosphorica e o nosodo é o Tuberculinum.
    • A série cancerínica é a mais recente e não está bem definida. O nosodo é o Carcinosinum. Os três grandes cancerínicos são: Thuya, Conium e Hydrastis.

É aqui de vital importância a anamnese e o simillimum terá de estender a sua acção, quer aos sintomas imediatos quer aos mediatos – os que constituem o modo reaccional daquele paciente –.Numa doença crónica, a totalidade dos sintomas, compreende os existentes desde o nascimento, excluindo os que se apresentem como estruturadores de um quadro agudo.

Em regra, o simillimum terá propriedades de cura quer no agudo, quer no crónico, mas quando tal não aconteça, terão de se receitar sucessivamente vários medicamentos, em consonância com a reavaliação constante do paciente e da patologia. Mas apenas um de cada vez. Recordamos que as Escolas Pluralistas preconizam a utilização simultânea de vários medicamentos e que as Complexistas misturam várias substâncias na mesma solução excipiente. Embora a prática clínica possa indicar a existência de resultados favoráveis mediante a particular prescrição terapêutica destas duas Escolas, aconselhamos a que os princípios basilares da homeopatia sejam inteiramente respeitados, até que a experiência clínica pessoal alicerçada os conteste.

É importante frisar que todos nós somos polidiatésicos – as diáteses puras ou quase puras só surgem em pediatria – e as diáteses devem ser tratadas na ordem cronológica inversa ao seu aparecimento: primeiro a mais recente, depois a(s) mais antiga(s).
Se constatarmos uma determinada diátese actual, a sua cura fará com que surjam os sinais da diátese ou diáteses mais antigas, que serão tratadas em ordem sucessiva com o respectivo simillimum, até ao desaparecimento integral de todos os sintomas.
Cada paciente individualmente considerado, exibe apenas uma parte total dos sintomas que constituem a extensão total da diátese, extensão esta que foi obtida pela observação de muitos pacientes acometidos dessa “doença crónica”.
No domínio das diáteses, para além dos medicamentos de referência, crê-se que exerçam um papel fundamental os nosodos, policrestos de acção quer geral, quer local – Psorinum, Medorrhinum, Luesinum, Tuberculinum e Carcinosinum –.

Os nosodos são produtos patológicos tecidulares ou extraídos de secreções mórbidas de origem vegetal, animal ou humana, diluídos e dinamizados segundo as técnicas da farmácia homeopática, administrados a partir da 6ª diluição decimal.
Os métodos bioterápicos foram desenvolvidos em França, paralelamente à homeopatia.

  • O Psorinum é a diluição da substância sero-purulenta contida na vesícula da sarna.
  • O Medorrhinum é a diluição da secreção purulenta blenorrágica.
  • O Luesinum é o lisado das serosidades treponémicas de cancros primitivos.
  • O Tuberculinum é a tuberculina bruta obtida da mycobacterium tuberculosis.
  • O Carcinosinum é preparado a partir de nódulos cancerosos, particularmente do seio – adverte-se que não é um remédio do cancro, mas da diátese cancerínica –.

É necessário reconhecer que apenas uma pequena parte dos bioterápicos podem ser considerados medicamentos homeopáticos, porquanto a maioria carece de experimentação, de patogenesia. Entre os que assim são reconhecidos, estão os supra mencionados.

Já referimos o medicamento constitucional de cada uma das diáteses:

  • Psora – Calcarea Carbonica;
  • Sicose – Calcarea Carbonica;
  • Lues  – Calcarea Fluorica;
  • Tuberculinismo – Calcarea Phosphorica.

As constituições – o conceito de constituição tem o seu domínio praticamente limitado à Escola Pluralista –, carbónica, fosfórica e fluórica, que são uma constante dos indivíduos, foram estudadas por Nebel e são determinadas pela observação do esqueleto e da forma do corpo.

    • O carbónico apresenta formas arredondadas e o antebraço apresenta na posição de repouso, relativamente ao braço, um ângulo inferior a 180º.
    • O fosfórico é um longílineo, grande e magro. O antebraço está exactamente no prolongamento do braço.
    • O fluórico é um longílineo ou brevílineo, com o rosto e o corpo dissimétricos, decorrentes de deformações esqueléticas. Os dentes estão mal implantados. O antebraço apresenta relativamente ao braço, um ângulo superior a 180º.

Expomos a seguir, ainda que sumariamente, os principais sinais e sintomas das várias diáteses, de forma a que o homeopata possa expeditamente subsumir-lhes o quadro clínico apresentado pelo doente sujeito a observação – para o estudo desta matéria, é fundamental a obra: “As diáteses homeopáticas”, de Max Tétau, Editora Andrei, 1998 – veja-se ainda o desenvolvimento da mesma, no nosso livro Homeopatia Essencial, da editora SeteCaminhos –.

PSORA

A psora resulta na sua base conceptual Hahnemaniana, das sarnas cutâneas. Estas abundavam na época e encontravam-se mal definidas clinicamente. Deste modo, a psora  não resulta exclusivamente da sarna mas também de toda uma série de enfermidades dermatológicas – eczemas, dermatoses, dermatites, micoses, etc. –.
Este grande miasma, comporta assim uma componente cutânea, seja ela adquirida ou congénita.

No que respeita ao quadro sintomático e de sinais clínicos psóricos:

  • Dermatologicamente apresentam-se manifestações mais ou menos intensas do miasma psórico. O simples prurido é um sintoma da psora.
  • Sintomatologia respiratória, crónica, alternada e com periodicidade.
  • Termoregulação alterada.
  • A presença de sintomatologia pertencente ao aparelho digestivo. Obstipação, funcionamento intestinal comprometido, desejo de açúcares e alterações do apetite.
  • Todas as secreções e excreções apresentam um odor forte e desagradável.
  • Problemas das faneras, especialmente das unhas.
  • Problemas ginecológicos – prurido vulvar, leucorreias nauseabundas e irritantes.
  • Propensão a parasitoses.
  • Astenia e tristeza exacerbadas.

Modalidades:

  • Agrava pelo frio ou pelo calor.
  • Agravamento com o tipo de Lua – cheia, nova, quarto minguante –.

SICOSE

A sicose resulta da evolução crónica de uma gonorreia. O conceito de sicose além de se enquadrar no quadro patológico da blenorragia, ultrapassava os seus limites e englobava qualquer tipo de tumoração benigna.

Os principais sinais e sintomas clínicos são:

  • Corrimentos genitais.
  • Diarreias de cor esverdeada.
  • Sudação exacerbada.
  • Exsudação rinofaríngea e do aparelho respiratório.
  • Neoformações cutâneas.
  • Tumoração volumosa, lenta, regular e benigna.
  • Aumento de peso.
  • Ruminação de pensamentos, angústia e mau humor. Quadros fóbicos, especialmente o receio de neoplasias. Ideias fixas e sensações corporais bizarras.
  • Agravamento das enfermidades pela humidade, especialmente pelo frio húmido.
  • Dores articulares.
  • Ingestão exagerada de chás.

Modalidades

  • Agrava mediante todas as formas de humidade.
  • Má reacção à vacinação.
  • Agrava por certos alimentos – chá, café, cebola –.
  • Melhora com a secura e o calor.
  • Melhora com eliminações líquidas.

LUETISMO OU MIASMA SIFILÍTICO

Hahnemann descreveu-a originalmente como sífilis visto resultar etiologicamente de uma infecção pelo Treponema Pallidum. A Lues – como é conhecida actualmente –  reflecte a evolução de uma doença pelo chamado “cancro duro”.

Sinais e sintomas da Lues:

  • Instabilidade de carácter com distúrbios da actividade e agitação.
  • Condutas obsessivas.
  • Insónias.
  • Exacerbação das secreções que atinge os diversos aparelhos.
  • Algias ósseas insustentáveis.
  • Ulcerações associadas aos diferentes aparelhos.
  • Progressão regular da hipertensão arterial severa.
  • Varizes e úlceras varicosas.
  • Amigdalites, anginas recidivantes e repetidas, parodontoses.
  • Dissimetrias morfológicas evidentes.

Modalidades:

  • Agravamento geral de todas as patologias à noite.
  • Melhoria geral na montanha.

TUBERCULINISMO

Esta é uma diátese actual, identificada por Nebel e Léon Vannier. É fruto da tuberculose e os seus órgãos alvos são os respeitantes ao aparelho respiratório.

Principais sinais e sintomas da diátese tuberculínica:

  • Sensibilidade reactiva aumentada a todas as agressões do aparelho respiratório.
  • Insuficiência respiratória.
  • Desmineralização global – dores dorsais frequentes, magreza apesar do apetite voraz, esgotamento físico e intelectual rápidos, agitação permanente–.
  • Variação extrema de todos os sintomas, sejam físicos ou mentais.
  • Cefaleias frequentes.
  • Apetite intenso.
  • Disfunções cardíacas – hipotensão, taquicardias, precordialgias –.
  • Diarreias fáceis.
  • Hipersexualidade.
  • Fluxo menstrual abundante.
  • Algias articulares.
  • Congestão venosa periférica.
  • Sudação profusa.
  • Cistalgias e cistites frequentes no sexo feminino.
  • Tosse fraca e frequente.
  • Tendência hemorrágica.
  • Ataques febris inesperados.

CANCERINISMO

Esta diátese é fruto de estudos recentes e caracteriza-se como um modo reaccional que pende sobre o risco da oncogénese.

Como principais sinais e sintomas clínicos desta diátese temos:

  • Propensão à formação de nódulos inflamatórios – próstata, gânglios, útero, cólon, seios –.
  • Dores que queimam, lancinantes, repetitivas localizadas nos processos inflamatórios.
  • Falência da energia vital – fadiga e tristeza profundas, emagrecimento lento, frio excessivo –.
  • Alterações do aparelho digestivo – ardor e sensação de queimadura na boca, ardor no estômago, dores que queimam e câimbras abdominais, hemorróidas permanentes –.
  • Afecções pulmonares, renais e geniturinárias.
  • Alterações de monta na pele.

Modalidades:

  • Agrava pelo frio, pelas alimentações excessivamente ricas e por um esforço mental excessivo e constante.
  • Melhora com um clima ameno e temperado, alimentação desintoxicante e pelo repouso.

Expostas as diáteses homeopáticas, fazemos um reparo a respeito da sua utilização na prática homeopática.
Efectivamente, a sua importância clínica não deve ser descurada de modo algum, mas o modo como se efectua a terapêutica nalguns casos conhecidos deixa muito a desejar.
A prescrição de nosodos ou de qualquer remédio diatésico deve ser sempre precedida por um estudo profundo, que tome em linha de conta as leis da similitude.

A INUTILIDADE DAS CONSTITUIÇÕES

Segundo Kent,  a classificação das constituições é inútil para auxiliar o homeopata na prescrição do simillimum. Inútil e perigosa, dizemos nós, quando vemos alguns pretensos homeopatas fazerem um uso indiscriminado e mecânico desse processo mental simples. Pouco nos falta para vermos generalizada uma corrente astro-homeopática…
Em bom rigor, cada indivíduo é uma verdadeira constituição, e inexistirão provavelmente no planeta, dois seres, que justifiquem apenas pela sua inclusão numa determinada tipologia, a prescrição do mesmo medicamento.
A noção de constituição não é coincidente com a de “terreno”. Nesta, evocamos uma particular sensibilidade de um indivíduo a um certo número de patologias – constata-se que no mesmo enfermo surgem repetidamente doenças com características comuns –.

É corrente a divisão em três grupos, de quadros susceptíveis de descreverem as diferentes características morfo-fisio-patológicas de um determinado indivíduo:

  • A constituição;
  • A diátese; e
  • O temperamento.

As diáteses já foram sumariamente analisadas num outro artigo, onde se mencionou o facto da noção de doença hahnemanniana crónica não ter sido unanimemente aceite. Homeopatas como Kent e Hering, não lhe atribuíram grande importância, desenvolvendo todos os seus esforços na tentativa de descoberta do simillimum. Não obstante, Gibson Miller, aluno de Kent, sustentou a necessidade de serem administrados sucessivamente diversos remédios, com o fim das doenças crónicas atingirem a cura.

Os temperamentos representam um conjunto de características psicológicas normalmente agrupadas em quatro modelos:

  • O sanguíneo;
  • O bilioso ou colérico;
  • O nervoso ou melancólico; e
  • O linfático ou fleumático.

Esta compartimentação não tem qualquer utilidade em homeopatia, onde o indivíduo é considerado globalmente, valendo aqui as mesmas razões que Kent expendeu para declarar a inutilidade das constituições em sede de prescrição.

A constituição define os indivíduos segundo características biotipológicas, só se encontrando estabilizada na idade adulta, quando o sistema músculo-esquelético atingir o seu pleno desenvolvimento – v.g., constituição carbónica, fosfórica e fluórica –.
A escola francesa recorre em excesso ao denominado remédio constitucional, que é o que apresenta sinais e sintomas semelhantes aos que definem uma constituição particular e que descreve um tipo morfológico considerado como tipo sensível.

Como Kent, consideramos que os seres humanos são milhares de vezes mais complexos que um jogo de xadrez nas mãos de jogadores extremamente hábeis.
A mente de cada indivíduo apresenta sintomas que só muito ocasionalmente serão semelhantes aos de um outro, englobado na mesma constituição.
O que o homeopata tem de pesquisar é a totalidade sintomática do paciente – como iremos constatar nos artigos que se seguem –, de molde a que com a necessária diligência e capacidade de individualização, prescreva estribado no princípio da similitude.

SINTOMAS

Os sintomas expressam as tentativas do organismo em se curar a si próprio.
Em homeopatia há que distinguir os inerentes à própria doença, dos sinais ou condições que pertencem caracteristicamente ao doente enquanto indivíduo.
Pode acontecer, que um determinado medicamento cubra todos os sinais e sintomas da doença – tendo em vista que a matéria médica homeopática é acima de tudo um  registo de sintomas –, e aquele não seja o escolhido como simillimum, perante a falta de correspondência com as condições gerais do paciente. Se um doente apresenta todos os sintomas mais característicos de Arsenicum Album – v.g., medo da morte com agitação e exaustão, agravamento periódico dos sintomas, dores sentidas com sensação de queimação, agravamento nocturno por volta da meia-noite – e os sintomas da doença aguda estão delimitados num outro medicamento, pode ser aquele e não este a ser prescrito.
Em homeopatia não existem doenças, só doentes. Não é o reumatismo, a depressão, a ansiedade, a artrite ou a enxaqueca que são curados, embora se vise a supressão da sintomatologia associada à patologia de que se padece. Cura-se sim, o paciente que sofre de artrite, reumatismo ou enxaqueca. Hahnemann terá respondido certa vez a um paciente que o inquiriu sobre a sua doença e prescrição homeopática: “O nome da sua doença não é problema meu, e o nome do medicamento que lhe dou não é problema seu”.
Nesta perspectiva, os sintomas característicos do paciente são mais importantes que os sintomas e sinais da doença – denominados patognomónicos  –.

O que caracteriza no essencial um indivíduo são as suas características mentais, aversões e desejos,  comportamento e reacção aos elementos naturais.
Hahnemann, percebeu que os sintomas importantes são os característicos, peculiares, raros, raríssimos, repetitivos e inexplicáveis. Incluem-se ainda os sintomas mentais – que também podem ser categorizados mediante as premissas acima referenciadas –, que deverão ser sempre utilizados para a selecção final do medicamento.

Os sintomas que nos devem guiar na escolha criteriosa do simillimum, são os individualizantes do doente, que devem ter correspondência na patogenesia do medicamento.

  • Os sintomas característicos, individualizam ou caracterizam o paciente no âmbito da totalidade sintomática, estando geralmente associados a modalidades de melhoria ou agravamento.
  • Os peculiares são sintomas característicos, específicos de alguns medicamentos – ex.: o medo da morte com agitação entre a uma e as três horas de Arsenicum Album, de apoplexia ao anoitecer de Pulsatilla – ou do próprio doente e do seu caso clínico – ex.: febre alta sem sede, calafrio com sede de água fria –.
  • Os raros, como o próprio nome indica, só muito raramente se verificam e no repertório são constituídos por rubricas com um número igual ou inferior a três medicamentos – medo de passar por esquinas: Argentum Nitricum e Kali-Bromatum –.
  • Os raríssimos, também denominados Keynotes, encontram-se em rubricas com apenas um medicamento – a sensação como se o corpo fosse frágil, de vidro, de Thuya –.

Alguns homeopatas quando constatam num paciente a existência de um sintoma raríssimo, procedem sem mais à prescrição desse medicamento. No entanto, tal procedimento é contrário aos princípios da doutrina homeopática. A função do Keynote deve ser meramente indicativa e auxiliar do diagnóstico diferencial.

São estes os sintomas que o homeopata deve investigar escrupulosamente no paciente – Clarke afirmava que se um paciente lhe dissesse “Há uma coisa que não sei se lhe devo contar, doutor”, não descansava enquanto este não lhe contasse de que realmente tratava a tal “coisa” (Receituário Homeopático, Editorial Martins Fontes, pág. 68) –. Pesquisava assim, os sintomas mais peculiares e absurdos e que quando presentes, são determinantes para a escolha do medicamento, claro está, com sujeição prévia a uma hierarquização.

Alguns sintomas são mais importantes que outros e devem ser valorizados, quer em sede de repertorização, quer de prescrição. A hierarquização que atribuímos aos sintomas relevantes – apreciaremos infra a matéria respeitante à valorização dos sintomas – pode traduzir-se no esquema seguinte:

  • Sintomas etiológicos: Transtornos por…; Todos os factores desencadeadores do quadro sintomático actual, quer endógenos ou exógenos, físicos ou mentais.
  • Sintomas e sinais do quadro clínico/homeopático individual:
    • Mentais
      • Sintomas da imaginação: Sensações, ilusões, delírios e sonhos.
      • Emocionais
      • Volitivos
      • Intelectivos
    • Gerais: transpiração, sono, sede, apetite, febre, características das eliminações, etc.
    • Locais: cabeça, peito, estômago, etc.
  • Sintomas extraídos da história clínica: transtornos funcionais – comuns e patognomónicos – e lesões orgânicas.

Nota: Os sintomas pertencentes ao grupo II deverão ser sempre que possível bem modalizados. Este grupo, aonde for aplicável, pressupõe a inspecção ou exame físico, levado a cabo pelo homeopata.

A prescrição sobre a totalidade dos sintomas, não corresponde à prescrição sobre todos os sintomas. É essencial isolar o maior número possível de individualizantes, que nos conduzam ao simillimum.
Pode dizer-se em síntese, que os sintomas característicos, peculiares, raros e estranhos ou absurdos, são os que definem o paciente e os que em regra mais atraem a nossa atenção, podendo conduzir ao esclarecimento por via diferencial, do resultado obtido por via do estabelecimento da Síndrome Mínima de Valor Máximo. Esta é constituída por 3 a 5 sintomas caracterizadores da individualidade do paciente, inscritos em rubricas com um número médio de medicamentos – rubricas que não tenham muitos nem poucos medicamentos inscritos –, conforme veremos mais detalhadamente no artigo referente à Repertorização.
Alguns autores, nomeadamente Séror, consideram um bom sintoma ou sinal o que pode ser encontrado num organismo vivo, mas não num cadáver: uma úlcera ou fractura é visível num ser desprovido de vida, mas o medo da morte ou da multidão, não. Os primeiros são de importância secundária, enquanto que os segundos assinalam a manifestação da vida através da matéria. Por outro lado, um sintoma explicável é um mau sintoma: uma criança que tem aversão a doces porquanto produtores de enormes dores dentárias. Um sintoma inexplicável, como desfazer-se em lágrimas sem saber porquê, é manifestamente um bom sintoma. Na mesma hierarquia devemos colocar os inconscientes, v.g., as múltiplas manifestações do sono.

Os sintomas mais comuns e indefinidos, tais como tristeza, ansiedade, medo, perda de apetite, sono agitado, desconforto, cefaleias, não merecem em especial a nossa atenção, porque são observados em quase todas as doenças e elencam o quadro sintomático de grande número de medicamentos.

Os sintomas gerais, que respeitam ao corpo na sua integralidade, têm um valor superior aos locais. Um só sintoma geral, bem marcante, é mais importante que o conjunto de locais ou particulares.
Quando o doente fala na primeira pessoa do singular, podemos estar quase certos que se refere a um sintoma geral: eu tenho frio; eu tenho sede.

Por outro lado, a importância dos sintomas mentais não pode ser descurada. Os mais importantes são os que manifestam a vontade e a afectividade do paciente. Depois, vêm os relativos à inteligência, seguidos pelos atinentes à memória.

Há sempre que reconhecer quais os sintomas comuns à doença e os que são característicos do doente, estes sim de vital importância.

O INTERROGATORIO EM HOMEOPATIA

Há que identificar a totalidade dos sintomas do paciente de forma a conseguir a sua remoção, o que equivale à destruição integral da causa da doença.
A soma de todos os sintomas em cada caso individual de doença deverá ser a única indicação, o guia isolado para nos orientar quanto à escolha de um determinado remédio (§ 18 do Organon). O simillimum resulta da comparação entre os sintomas da doença, os sinais do doente e os sintomas dos medicamentos exibidos nas matérias médicas.
Esta identificação consegue-se por intermédio do seu “exame”.

Segundo Hahnemann:

  1. O paciente fornece uma história detalhada dos seus padecimentos. Deve descrever exactamente o que sente e de que sintomas está mais ansioso de se libertar. Se for acompanhado, as pessoas que o rodeiam relatam as suas queixas, o seu comportamento e o que percebem nele, enquanto o homeopata vê, ouve e observa o que há no doente de fora do comum (§ 84 do Organon). É necessário que o homeopata não se deixe induzir em erro pelos relatos das pessoas que possam acompanhar o enfermo (§ 98 do Organon).
    O homeopata anota tudo, iniciando um novo parágrafo a cada sintoma relatado evitando interrompê-lo (§ 84 e § 85 do Organon).
    Quando se relacionam os sintomas um abaixo do outro, é-nos permitido escrever ao seu lado os remédios que os produzem conforme indicação repertorial. Tanto Clarke como Boenninghausen, prescreviam, em regra, ao paciente o medicamento que correspondesse ao maior número de sintomas.
  2. Atende então a cada sintoma em particular obtendo informações mais precisas – o homeopata interroga-o sobre a localização da dor ou sensação, do horário em que ocorre, como agrava ou melhora, etc. – sem que formule questões de forma sugestiva ou que possam ser respondidas com um simples sim ou não (§ 86 e § 87 do Organon).
  3. Se nos padecimentos voluntariamente mencionados, houver lacunas sobre várias partes, funções do organismo e estado mental, o homeopata deve questionar o paciente no que a tal respeitar (§ 88 do Organon). Deve procurar-se sempre traçar um perfil psicológico do enfermo.
  4. Deverá também anotar tudo o que observar no doente (§ 90 do Organon).
  5. No caso de doença crónica há que a reconhecer na sua forma original, devendo para tanto o doente ser privado por alguns dias dos medicamentos que toma, procedendo-se à anotação cuidada das mais pequenas peculiaridades ou sintomas mínimos (§ 91 e § 95 do Organon). Se o homeopata não for médico alopata, em caso algum retirará a medicação prescrita pelo médico de família ou especialista, sem o consentimento deste.
  6. Nas doenças agudas, não obstante o homeopata tenha de inquirir menos, porquanto os sintomas estão bem presentes na memória do enfermo, deverá ser feito um quadro completo da doença (§ 99 do Organon).

O nosso modelo de interrogatório foi idealizado visando uma repertorização breve e o mais exacta possível.

Durante o interrogatório devem ser sempre tomadas em consideração:
As modalidades que provocam, agravam ou melhoram os sintomas, alternâncias ou concomitâncias sintomáticas, todos os factores subjectivos e sensações associadas à doença ou ao próprio paciente como entidade global, a lateralidade, horários de agravamento e melhora e os factores etiológicos que geraram a morbicidade do quadro.
A modalidade homeopática determina em que circunstâncias melhora ou agrava o sintoma ou a totalidade sintomática do paciente. São as modalizações que tornam o sintoma característico.
Alguns exemplos:

Alimentares: agravações ou melhoras por efeito de determinados alimentos ou bebidas.
Atmosféricas e ambientais: andando ao ar livre, desejo ou aversão dos grandes espaços, lugares fechados, chuva, neblina, humidade, tempestade, sazonalidade, luz – natural ou artificial –, ruído, música, odores.
Banho e lavagens: frio, quente, mar, aversão a lavagens.
Corpos celestes: Sol, Lua, estações do ano.
Horárias: dia, manhã, tarde, noite, anoitecer, uma qualquer hora específica.
Lateralidade: direita, esquerda.
Locomoção e posição: andar, andar de carro, barco, correr, dançar, deitado, sentado, em pé, de joelhos, curvado.
Movimento e repouso: no começo do movimento, durante ou após o mesmo, deitado ou sentado.
Roupas: apertadas ou não, cobrir-se, descobrir-se, nu.
Temperatura: calor, frio, mudança.

A anamnese compreende  um período prévio em que o paciente mencionará a sua queixa principal e  relatará mesmo que parcialmente, a história pregressa da doença.

A todo o momento, o homeopata deve atentar nas características peculiares e únicas do seu paciente. Desde o momento em que ele entra no consultório até à sua partida, o homeopata tem obrigação de constatar todo e qualquer sinal pertinente para a procura do medicamento correcto.
Esta perspectiva global do paciente compreende inúmeros aspectos que serão discutidos na parte respeitante ao interrogatório propriamente dito, embora se destaquem alguns de compreensível importância: aspecto do paciente, movimentos, gestos com a face, modo de falar, grau de lucidez mental, odor, etc.

No que respeita às fases da anamnese – segundo o Dicionário de termos técnicos de Medicina e Saúde de Luis Rey:Reminiscência, recordação. Relato feito pelo paciente (ou alguém responsável por ele) sobre os antecedentes, detalhes e evolução da sua doença até ao momento do exame médico; história pregressa da doença”. Num sentido mais lato, o conceito de anamnese engloba a fase de interrogatório propriamente dita. Embora não resultem de relato espontâneo por parte do paciente, os sinais recolhidos por via de interrogatório, desde que o homeopata não sugira as respostas ao doente, assumem por defeito a validade de sintomas –, numa consulta de homeopatia:

  1. Queixa principal ou relato da história individual – os dados recolhidos durante esta fase devem-no ser na linguagem do paciente, já que as patogenesias foram originalmente escritas na linguagem corrente empregue pelos voluntários das experimentações. Revelar-se-á infrutífero e contraproducente tentar empregar uma linguagem mais erudita ou técnica nos relatórios e fichas clínicas dos doentes:O paciente deve apresentar uma história o mais detalhada possível da doença.Se possível, deverá referir os factores etiológicos ou biopatográficos.

    factor etiológico – ou biopatográfico –  é o acontecimento que originou o estado patológico. Pode ser hereditário – causa diatésica –, ter origem física – exposição ao frio húmido ou frio seco – ou psicológica – desgosto de amor, ciúme, medo ou pânico –.

    Procederá à descrição do quadro sintomático.

  2. Interrogatório – este deve ser efectuado com base nos sintomas que o paciente não aprofundou ou que sejam dúbios para o homeopata. Proceder-se-á há recolha de dados que consolidem e especifiquem a narração do paciente (§87 e §89 do Organon). O bom interrogatório, também depende da atenção dada a pormenores ou factores predisponentes do quadro patológico, que o paciente não mencionou, por embaraço, indolência, falta de disposição ou esquecimento e que o homeopata já conhece como essenciais a um diagnóstico fiável e correcto, especialmente em sede de doença crónica (§93 e §94 do Organon).Compreende uma série de passos que poderá seguir ou não, dependendo da sua experiência clínica ou até mesmo da sua predilecção por um outro modelo de questionário. Não é forçoso que o bom interrogatório seja tal qual aquele que demonstramos. Pelo contrário, este modelo de interrogatório é meramente indicativo de como se poderá processar o questionário aplicado à clínica homeopática.
    O questionário que apresentamos depende directamente da estrutura do Repertório Homeopático de Ariovaldo Ribeiro  Filho, que tem por base o de Kent.
    2.1 Dados pessoais

    Aqui, incluem-se todos os dados pessoais do paciente tais como: nome, idade, profissão, agregado familiar, etc.
    Podem preencher-se estes dados logo à chegada do paciente ao consultório – atitude mais corrente –, permitindo que se descontraia e se familiarize com o homeopata e o espaço da consulta.

    2.2 Fase interrogatória.

    2.2.01 Sobre a mente e as ilusões.
    2.2.02 Sobre o sono e os sonhos.
    2.2.03 Cabeça e pescoço.
    2.2.04 Olhos e visão.
    2.2.05 Ouvidos e audição.
    2.2.06 Nariz.
    2.2.07 Face.
    2.2.08 Boca, paladar e dentes.
    2.2.09 Apetite, bebidas e alimentícios.
    2.2.10 Garganta, garganta externa.
    2.2.11 Laringe e traqueia.
    2.2.12 Tórax, peito.
    2.2.13 Aparelho respiratório, respiração.
    2.2.14 Tosse.
    2.2.15 Expectoração.
    2.2.16 Costas.
    2.2.17 Aparelho cardiovascular.
    2.2.18 Abdómen e estômago – aqui se incluem todos os órgãos nobres abrigados na região abdominal, nomeadamente, baço, fígado, intestinos, vesícula biliar –.
    2.2.19 Recto.
    2.2.20 Rins e bexiga.
    2.2.21 Excreções (urina e fezes).
    2.2.22 Genitais.
    2.2.23 Pele.
    2.2.24 Aparelho locomotor.
    2.2.25 Sistema nervoso.
    2.2.26 Transpiração.
    2.2.27 Dor.
    2.2.28 Generalidades – aqui incluem-se as modalidades de agravamento ou melhora mais gerais –.

    2.3 Interrogatório sobre os antecedentes do paciente.

    2.3.1 Antecedentes familiares – os antecedentes familiares compreendem: falecimentos, patologias e estados mórbidos dos ascendentes e colaterais do paciente –.

    2.3.2 Antecedentes pessoais – estes englobam: antecedentes patológicos e tóxicos, imunizações, alergias medicamentosas, outros tipos de alergia, tratamentos actuais. Não convém descurar os factores psicológicos que de alguma forma possam ser categorizáveis como antecedentes pessoais.

    2.3.3 Antecedentes ginecológicos
    neste momento questiona-se a paciente sobre: menarca, menopausa, ciclo menstrual, dispareunia, dismenorreia, síndrome pré-menstrual, incómodos pélvicos, leucorreia ( (odor, cor, consistência, quantidade), gravidezes  (abortos, vivos), partos  (cesarianas), tratamentos hormonais e contraceptivos .

    2.4 Inspecção ou exame.

    2.4.1 Sinais vitais –  Inclui: pulso, temperatura, pressão arterial, frequência cardíaca, frequência respiratória –.
    2.4.2 Aspecto geral – nesta fase podem avaliar-se: nutrição (normal, caquexia, magreza, desnutrição, excesso de peso, obesidade), estado sensório (estupor, confuso, alerta, obnubilado ou outros dados pertinentes), postura e atitude (colabora, não colabora, etc.), hidratação (normal, desidratação leve, moderada ou grave), perfusão (palidez, cianose), desenvolvimento ósseo e muscular (normal ou anormal) –.
    2.4.3 Reavaliação e consolidação, a posteriori, por intermédio do exame, dos dados obtidos na fase de interrogatório – os restantes sinais recolhidos na fase de exame podem  associar-se a determinadas questões do período de interrogatório que se susceptibilizem de confirmação empírica.

O REPERTÓRIO HOMEOPÁTICO

Hahnemann entendeu desde os primórdios da sua prática clínica e científica, face ao desenvolvimento e alargamento da Matéria Médica homeopática, consubstanciada no aumento das substâncias experimentadas, a necessidade de criação de repertórios que se constituíram como índices de sintomas coligidos a partir de registos toxicológicos – v.g. a intoxicação voluntária ou involuntária pelo arsénico –, experimentações em voluntários aparentemente saudáveis – que começaram por ser os próprios homeopatas –, e curas comprovadas pela prática clínica.
Estes repertórios, prosseguem a descoberta do simillimum  e espelham a impossibilidade do ser humano, atentas as suas limitações, de memorizar todos ou a maior parte dos sintomas das ditas Matérias Médicas.

De Hahnemann (1) a Kent (2), foram publicados inúmeros repertórios destacando-se os de Boenninghausen (3)- “The Repertory of Antipsorics” (1832); “Repertory of the Medicines wich are not Antipsorics” (1835); “Therapeutic Pocket Book” (1845) –, de Jahr – “New Manual of Homeopathic Practice” (1841) –, de Lippe – “Repertory of the more characteristics Symptoms of the Materia Medica” (1880) –, de Hering – “Analitical Repertory” (1881) – e Gentry – “The Concordance Repertory of the Materia Medica” (1890) –.

Em 1887, Kent fazia publicar o “Repertory of the Materia Medica” com 540 medicamentos citados, podendo dizer-se, sem exagero, que está na origem de todos os repertórios actualmente utilizados.
Os capítulos desta obra, formam 37 secções – v.g. 1 – Mente; 2 – Vertigem;        3 – Cabeça; (…); 32 – Sono; (…); 37 – Generalidades – e alguns são subdivididos anatomicamente – v.g. Cabeça: Fronte; Lados; Occipital; Têmporas e Vértice –.
Os medicamentos surgem pontuados de 1 a 3, isto de acordo com a sua eficácia e confirmação na génese patogénica.
As referências cruzadas presentes na obra, destinam-se a prevenir interpretações erróneas dos sinais patológicos expressos pelo paciente, isto, ao remeterem para rubricas sinónimas as expressões ou palavras que este emprega.

Além destes, não podemos deixar de nos referir ao “Clinical Repertory” de John H. Clarke (1853-1931), autor de uma Matéria Médica que demorou dezasseis anos a concluir e que se apresenta como uma das mais importantes para o estudo e prática da Homeopatia. (4)

 

_Notas:

(1) “Fragmenta de Viribus Medicatorum Positivis in Sano Corpore Humano Observatis”, obra composta por dois volumes, em que o primeiro expõe a patogenesia de 27 medicamentos e o segundo pode ser qualificado o primeiro repertório de sintomas dispostos alfabeticamente, com referências aos constantes no primeiro volume.

(2) Kent nasceu em 31/03/1849, obtendo o diploma em medicina aos 25 anos. Converteu-se à homeopatia no seguimento da cura operada por um prático homeopata na sua segunda mulher e iniciou os seus estudos lendo o Organon de Hahnemann. Para além dum Repertório com 1423 páginas, foram publicados  entre outros, “Lectures in Homeopathic Philosophy” e “Lectures on Homeopathic Materia Medica”.

(3) Boenninghausen nasceu em 12/03/1785, na Holanda, licenciando-se em Direito em 1806. Possuía uma cultura diversificada, que abrangia a botânica, a agricultura e a medicina. Em 1828, um amigo que se havia tornado homeopata, cura-o de uma tuberculose quando as suas esperanças de vida já tinham terminado. A Homeopatia ganhou assim um adepto fervoroso e Hahnemann o mais dedicado discípulo, que produziu um intenso trabalho literário.

(4) “Dictionary of Practical Materia Medica”, Homoeopathic Book Service, 1991 – a primeira edição é do ano de 1900 –, três volumes com um total de cerca de 2.500 páginas.

O REPERTÓRIO DE KENT

Kent, após a sua conversão à Homeopatia, utilizou durante alguns anos o repertório de Lippe.
Insatisfeito com todos os trabalhos realizados até essa altura, nomeadamente com a doutrinação de Boenninghausen – em que as modalidades das partes se misturavam com as do paciente em si –, optou por uma sistematização própria, compilando na medida do possível todos os repertórios existentes, inseriu a sua experiência clínica após confrontação com a experimentação, e incluiu rubricas directamente extraídas das matérias médicas.

O Repertório de Kent, base de todos os contemporâneos, foi publicado em fascículos, com cerca de 75.000 rubricas e 540 medicamentos descritos, passando depois a 648.

Na sua perspectiva, “o Homem é prioritário aos órgãos”, e por tal motivo, os sintomas gerais têm uma valoração superior aos locais. O seu repertório estrutura-se nos princípios da lógica dedutiva, ou seja, do geral para o particular. Enquanto Kent particulariza os gerais, Boenninghausen generaliza os particulares, estando o repertório daquele organizado do geral para o particular e o deste do particular para o geral.

É constituído por 37 capítulos:
1 – Mente
2 – Vertigem
3 – Cabeça
4 – Olhos
5 – Visão
6 – Ouvido
7 – Audição
8 – Nariz
9 – Face
10 – Boca
11 – Dentes
12 – Garganta
13 – Garganta externa
14 – Estômago
15 – Abdómen
16 – Recto
17 – Fezes
18 – Bexiga
19 – Rins
20 – Próstata
21 – Uretra
22 – Urina
23 – Genitais Masculinos
24 – Genitais Femininos
25 – Laringe e Traqueia
26 – Respiração
27 – Tosse
28 – Expectoração
29 – Peito
30 – Costas
31 – Extremidades
32 – Sono
33 – Calafrio
34 – Febre
35 – Transpiração
36 – Pele
37 – Generalidades

No repertório, partindo dos gerais para os particulares, temos: lateralidade, horário, modalidades e irradiação, e a seguir a localização e as sensações.

Utilizou três graus de sintomas:

1º Grau – São os sintomas observados na totalidade ou na maioria dos experimentadores e que são observados com frequência nas curas clínicas.
Aparece em negrito, equivalendo a três pontos.

2º Grau – Sintomas observados em alguns experimentadores e verificados algumas vezes na clínica.
Aparece em itálico e vale dois pontos.

3º Grau – Sintomas obtidos através de um ou raros experimentadores, não observados em reexperimentações, sendo verificados na cura e pacientes e aceites como clínicos.
Aparece em romano e vale um ponto nos quadros repertoriais.

Fez uso das referências cruzadas – sinonímias e termos semelhantes – tal como Boenninghausen.

Kent explicou o seu próprio método de trabalho:
“Quando começo um caso, destaco todas as expressões que descrevem o estado geral do paciente, como as agravações e melhorias do seu estado geral ou de vários sintomas.
De seguida, considero diligentemente todos os anseios, quer físicos quer mentais, todos os desejos e aversões, repulsas, medos, pavores, etc.
Depois considero as perversões intelectuais, métodos de raciocínio, memória, causas de perturbações mentais, etc.
Organizo-os todos juntos, ordenadamente, com o objectivo de relacionar ao lado de cada um deles todos os remédios das rubricas correspondentes que encontramos no repertório.
Pelo processo do cancelamento, logo constataremos que poucos remédios cobrem todos os sintomas, e desta forma apenas alguns devem ser cuidadosamente comparados com o objectivo de determinar o remédio que entre todos aqueles é o que mais se assemelha aos sintomas particulares ainda não alinhados para a consideração que foi feita em relação aos primeiros”.

Método de trabalho de Kent, segundo Ariovaldo – Conhecendo o Repertório e Praticando a Repertorização, Editora Organon, pág. 67 –:
1º – Selecção hierárquica dos sintomas característicos:

  • Gerais – Agravações e melhorias do estado geral do paciente;
  • Vontade – Anseios físicos e mentais (desejos, aversões, medos…);
  • Intelecto – Perversões intelectuais, raciocínio, memória, etc.

2º – Cruzamento dos medicamentos correspondentes a cada rubrica, buscando os que cubram a totalidade sintomática (método de cancelamento ou de eliminação).
3º – Diferencial – Comparação com as rubricas correspondentes aos sintomas restantes (particulares).

O REPERTÓRIO HOMEOPÁTICO ESSENCIAL DE ALDO FARIAS DIAS

O Repertório Essencial, na sua primeira versão, em 1991, continha cerca de 3000 rubricas extraídas dos capítulos Mind e Generalities do repertório de Kent, tanto bastando para a repertorização das doenças crónicas.
A compilação foi ampliada a partir do Repertório de Barthel, tendo nesta segunda versão atingido o dobro das rubricas.
Em Agosto do ano de 1997 foi publicada uma edição com 18.000 rubricas, e em Agosto de 1998, uma nova versão com 20.080 rubricas.
A edição do millenium, comemorativa dos dez anos do repertório atingiu as 22.700 rubricas. No Compact Disk que acompanha o livro, o Repertório Homeopático Essencial está disponível em dupla edição bilingue: Português/Inglês e Inglês/Português.

As rubricas estão dispostas em ordem alfabética, em dois capítulos:

  • Mente – com a totalidade dos sintomas, incluindo os sonhos e sintomas da sexualidade;
  • Físico – Os sintomas físicos gerais foram totalmente incluídos. Os sintomas particulares, apenas nas suas rubricas principais.

As modalidades estão referidas a três níveis de generalização: ao sintoma, às partes e em geral.
As sensações estão representadas como rubricas generalizantes e suas localizações.
Os sintomas de localização e os sintomas concomitantes – são sintomas que acompanham outros sintomas, sem algum nexo aparente entre eles foram compilados do Repertório de Boger.
As dores estão representadas nos seus tipos generalizados. As minúcias particularizantes das dores e suas extensões não estão representadas por raramente se encontrarem na clínica.

A pontuação dos medicamentos é feita em 5 graus, baseada nos repertórios de Boger/Boenninghausen.

Segundo Aldo Dias “o Repertório Homeopático Essencial contém as rubricas essenciais para a prática da homeopatia e apresenta características estruturais dos repertórios sintéticos, dos repertórios de Boenninghausen, dos repertórios temáticos e dos repertórios de concordância. Permite portanto, repertorizar pelos métodos de Kent e de Boenninghausen”.

Pode ler a Introdução do mesmo em:
www.geocities.com/HotSprings/Spa/5086/prefacio.pdf.
Nesta introdução poderá entrar em contacto com exemplos elucidativos dos métodos de repertorização de Boenninghausen e de Kent.

Veja também:
www.homeopatiaonline.com/milenium/

O REPERTÓRIO DE ARIOVALDO RIBEIRO FILHO

Após longos anos de intenso trabalho, Ariovaldo Ribeiro  Filho, publicou em 1996 o “Novo Repertório de Sintomas Homeopáticos”, estruturado nos princípios do de Kent.
Esta obra, com 1201 páginas e 1611 medicamentos citados, é composta por 42 capítulos:

  • Mental.
  • Ilusões.
  • Vertigem.
  • Cabeça.
  • Olhos.
  • Visão.
  • Ouvido.
  • Audição.
  • Nariz e Olfacto.
  • Face.
  • Boca.
  • Paladar.
  • Dentes.
  • Garganta.
  • Garganta externa.
  • Estômago.
  • Bebidas e Alimentícios.
  • Abdómen.
  • Recto.
  • Fezes.
  • Bexiga.
  • Rins.
  • Próstata.
  • Uretra.
  • Urina.
  • Genitais Masculinos.
  • Genitais Femininos.
  • Laringe e Traqueia.
  • Respiração.
  • Tosse.
  • Expectoração.
  • Peito.
  • Costas.
  • Extremidades.
  • Unhas.
  • Sono.
  • Sonhos.
  • Calafrio.
  • Febre.
  • Transpiração.
  • Pele.
  • Generalidades.

Aos 37 capítulos do Repertório de Kent, Ariovaldo fez acrescer cinco – Ilusões; Paladar; Bebidas e Alimentícios; Sonhos e Unhas –, originários, respectivamente, dos capítulos: Mental, Boca, Estômago e Generalidades, Sono e Extremidades.

Os capítulos estão divididos em rubricas – letra maiúscula em negrito – e estas: na primeira sub-rubrica, segunda sub-rubrica, terceira sub-rubrica, quarta sub-rubrica, quinta sub-rubrica, todas com diferentes sinais identificativos, sexta sub-rubrica (sem sinal).

Os períodos do dia têm a seguinte significação horária:

Manhã – 5 às 9h.
Antes do Meio-Dia – 9 às 12h.
Tarde – 13 às 18h.
Anoitecer – 18 às 21h.
Noite  – 21 às 5h.

Estão descritas inúmeras referências cruzadas (Ver… ou ÄVer…), cuja função é a de auxiliar o homeopata na escolha do sintoma e do medicamento correcto, face à afinidade, sinonímia ou analogia de algumas expressões comumente utilizadas.

As abreviaturas mais usadas são:

  • agr. – agravação.
  • melh. – melhora.
  • av. – aversão.
  • des. – desejo.

Os medicamentos citados foram divididos em três graus diferentes:

  • Grau I – em negrito com valor de três pontos. Sintoma registado pela maioria ou por todos os experimentadores, confirmado em diferentes grupos de experimentação e cuja eficácia foi comprovada na cura de casos clínicos.
  • Grau II – em itálico com valor de dois pontos. Sintoma registado por uma parte dos experimentadores e comprovado na clínica.
  • Grau III – em estilo romano com valor de um ponto. Sintoma apresentado por um ou muito poucos experimentadores.

Ariovaldo deu como principais características do Novo Repertório de Sintomas Homeopáticos:

  • Fundamentação em fontes bibliográficas consistentes
  • Tradução e adaptação criteriosa ao português
  • Revisão, correcção e adição de rubricas
  • Revisão, correcção e adição de medicamentos
  • Ampliação e correcção das referências cruzadas
  • Elaboração de notas explicativas
  • Criação de cinco novos capítulos
  • Adição de termos populares
  • Revisão das especialidades médicas
  • Apresentação e valorização da produção científica nacional
  • Apoio institucional

Para além do Novo Repertório de Sintomas Homeopáticos de Ariovaldo, da Editora Robe, haverá que destacar:

  • Repertório Homeopático Digital II – Lince – Versão Básica – Ariovaldo Ribeiro Filho e Zalman Bronfman, Editora Organon.
  • Repertório Homeopático Digital II/Lince – Full (Completo) – Ariovaldo Ribeiro Filho e Zalman Bronfman.

A versão completa é cerca de três vezes mais cara que a versão básica, contendo:
Repertório Homeopático completo e actualizado em versão trilingue – português/inglês/espanhol – e plataforma interactiva com MS Windows-95 ou superior. Actualizações com milhares de novos sintomas e medicamentos. Estruturação simplificada das rubricas tornando mais fácil e intuitivo encontrar os sintomas. Localização de sintomas simples e analógica. Selecção dos sintomas pelo sistema de arrasto com o mouse  (drag and drop). Repertorização com cruzamento, soma de sintomas e com sintoma director. Arquivamento directo e simplificado das repertorizações. Extracção de sintomas e medicamentos – Matéria Médica Repertorial –. Matérias Médicas de Boericke, Allen – sintomas chaves –, Nash, Kent, Vannier, Charette, Puras de Hahnemann, Hering (10 volumes) e Allen (12 volumes), Lathoud, Vijnovsky e Mirilli – temática –. Ficha Clínica. Acesso automático à Internet para as actualizações. Vida e obra ilustrada de Hahnemann, Boenninghausen e Kent. Tutorial de repertório e repertorização. Acompanha manual ilustrado.
Para mais informações, ver: www.organonbooks.com.br

 

Translate